Que Charles Miller me perdoe; mas, o futebol está ficando chato. Difundido na Inglaterra e praticado por pessoas de classe média alta, o futebol, chegou ao Brasil por volta de 1894, pelas mãos – melhor dizer pelos pés – de Charles Willian Miller - filho de um engenheiro escocês radicado no país. O que talvez Charles Miller não imaginasse é que o futebol viria a se tornar paixão no Brasil. Em poucos anos, o futebol – esporte das elites – passou a ter um crescente prestígio popular.
Da fidalguia aristocrata européia para o moleque gingado afro-brasileiro. O futebol, no Brasil, ganhou malícia, criatividade, encanto e alegria. Passou a ser lúdico. Até aí tudo bem; aliás, tudo ótimo. Jogar futebol, no Brasil, não era só privilégio da elite, e, sim, de todos – independente de classe social, cor e credo. Talvez, por isso, o futebol tenha se tornado paixão nacional. Isso é apenas uma hipótese.
Mas, ultimamente, sinto no ar, um retrocesso nessa história toda.
Hoje, o futebol – ainda popular e, agora, globalizado – é uma indústria do dinheiro. Como dizem por aí: “o mercado do futebol”. Ninguém investe nesse mercado sem ter um retorno financeiro. E essa lógica do capital está reconduzindo o futebol, de forma entediante, para os braços da cultura aristocrata. É nessa dialética que a Copa do Mundo vai começar. Por ironia do destino – ou pura estratégia comercial – a Copa de 2010 será realizada na sofrida África do Sul.
Bem, paro por aqui; com esses “contrastes fortuitos”. Não quero fazer do futebol uma batalha ideológica. Nem defender o fim do mercado da bola. Muito menos, cair naquele velho clichê “proletário de todos os países, uni-vos!”. Não é por aí. As teses são muitas; as percepções também. Só estou querendo alertar: o futebol atual está ficando muito chato. Explico por que.
Em 1982 eu era uma criança. Chorei, na frente da televisão, ao assistir o Brasil perder para a Itália, por 3x2, no estádio Sarriá, em Barcelona. Lágrimas da derrota, da dor e do sofrimento de quem perdeu. Jogo é jogo. Um dia a gente perde, no outro a gente ganha; mas, logo esse? Contra a Itália? Foi um golpe duro. Não é sempre que se forma um meio-de-campo com Falcão, Cerezo, Sócrates e Zico; uma seleção com Júnior, Leandro, Oscar, Luizinho, Serginho, Éder e Valdir Perez e, é claro, comandada pelo técnico Telê Santana – talvez o “último romântico, dos litorais deste oceano Atlântico”, parafraseando o músico brasileiro, Lulu Santos. Hoje, passados vinte e oito anos, percebo que, aquele dia 05 de julho de 1982, foi o dia em que o futebol começou a ficar muito chato.
Hoje, ler notícias sobre o futebol é algo enfadonho e fastidioso. Estamos na “Era” dos “dois volantes de marcação”; “duas linhas de quatro, para conter o adversário”; “o empate é uma vitória fora de casa”; “defender é o melhor ataque”; “jogar pelo regulamento para ser campeão”; “um gol fora de casa vale por dois”; “atacante tem que voltar para ajudar na marcação”; “time de operários”; às vezes, até aparecem os “três zagueiros”; “prefiro jogar feio e ganhar, do que, jogar bonito e perder”; “futebol-força ganho na truculência”; e, por aí se vão os chavões aristocratas. Perceberam a chatice do “mercado da bola?”
Bom, paro por aqui que o jogo do Inter, time do meu coração, vai começar. E, eu não posso perder essa chatice. Afinal, o que move a vida é a paixão.